«Oh! para que viajar?» disseste. É que a alma
Se toma de longos tédios, em toda a parte e sempre;
É que há um desejo, ardente como uma chama,
Que, extintos os nossos amores, sobrevive aos nossos amores!
É que se está mal aqui!? Como as andorinhas,
Um vago instinto de partir nos devora até morrer;
É que aos nossos corações, meu Deus! puseste asas.
Eis por que quero partir!
É que o coração relincha ao pensar em viagens,
Mais forte que o corcel que, selado, nos espera;
É que há no nome das mais longínquas paragens
Encantos sem igual para quem o escuta;
Irresistível apelo, ranz des vaches para a alma
Que busca sua pátria perdida? no porvir;
É soberbo como um clarim, doce como um canto de mulher.
Eis por que quero partir!
É que tu, pobre criança, tão jovem e tão bela,
Que vivias junto de nós e dormias sobre os nossos corações,
Não soubeste domar essa força rebelde
Que nos lançou para ti para nos empurrar para outro lugar!
Já não há mistério no fundo do teu sorriso,
Conhecemo-lo demasiado para jamais voltar;
A corrente dos beijos quebra-se,? o amor expira…
Eis por que quero partir!
Em vão, toda em prantos, a mulher que nos ama
Viria ao nosso ombro agarrar os nossos mantos,
Ficaríamos gelados nesse instante supremo;
Lágrimas derramadas em excesso por nós já não são belas.
Já não ouviríamos essa voz que repete:
«Oh! para que viajar?» num terno suspiro,
E diríamos adeus sem voltar a cabeça.
Eis por que quero partir!
Oh! não me acuses; acusa a natureza,
Acusa antes a Deus,? mas não me acuses!
É minha culpa, acaso, se na vida obscura
Meus olhos têm sede de dia, meus pés têm sede de passos?
Se não pude ficar a definhar sobre o teu leito,
Se teus braços me sufocavam sem me fazer morrer,
Se me era preciso mais ar do que cabe na tua boca…
Eis por que quero partir!
Por que não podias bastar ao meu pensamento
E teus olhos não ser mais que os meus únicos horizontes?
Por que não esconder minha cabeça repousada
Sob os abrigos de ouro puro de teus longos cabelos loiros?
Como a jovem esposa adormecida ao amanhecer,
A flor do amor, como ela, à noite vai reabrir-se…
Mas se o amor já não é, por que ainda da alma?
Eis por que quero partir!
Tu não a conheces, esta vida entediada,
Cansada de pender do mastro, ávida de furacão.
Tu, ficas sempre, apoiada sobre o teu cotovelo,
A ver estagnar a tua como um belo lago.
Fica-te aí! Meu amor foi a sombra de uma nuvem
Sobre o lago;? o sol voltará a fremir nele!
Não guardarás vestígio da minha passagem…
Eis por que quero partir!
Ó taça de vermeil onde bebi a vida,
Não te levo comigo no meu seio todo gelado!
Fica atrás de mim, fica meio cheia,
Oferenda ao futuro e destroço do passado.
Posso beber agora, sem que muito me custe,
Uma bebida menos doce e menos pronta a esgotar-se,
No côncavo das minhas mãos, nas valas da estrada…
Eis por que quero partir!
Mas, se é ofender-te o partir, oh! perdoa;
Embora destas dores das quais não tiveste parte,
Nada, ai! (e contudo outrora foste boa!)
Não saberia resgatar o crime da partida.
Por que te associaria à minha triste viagem?
Quando o pudesses, ousarias vir?
Mais sombrio que Lara, não terei pajem…
Eis por que quero partir!
E que importa um perdão!? Inocente ou culpado,
Nunca se é fiel ou pérfido pela metade;
O coração, sem ser duro, permanece inabalável,
E o esquecimento vale-lhe mais que uma vã piedade.
Ah! o esquecimento! que repouso quando a nossa alma está cansada!
Adormece nos seus braços, sem sonhar nem sofrer…
Nada quero de ti… nem mesmo um pensamento!
Eis por que quero partir!
Pois há, tu sabes, ó mulher abandonada,
Um viajante mais velho, mais sem piedade que eu,
E não é um dia, alguns meses, um ano,
Mas é tudo que ele deve tomar, dos outros como de ti!
Tal como espigas de ouro ceifadas por um braço ávido,
Ele toma beleza, felicidade, e até a lembrança,
Faz o seu feixe e vai-se do campo que deixa árido…
Eis por que quero partir!
Sim! partir antes dele, partir antes que ele venha!
Deixar-te ainda bela sob as tuas lágrimas derramadas,
Não procurar a tua mão que arrefece na minha,
E, sob uma fronte baça, os teus olhos, astros perdidos!
Mesmo que só se tenha o respeito da que foi bela
Dever-se-ia poupar a vê-la murchar,
Pois que Deus não quer que ela seja imortal!
Eis por que quero partir!
Jules Barbey d’Aurevilly
Tradução gerada por Poésies 123 com o apoio do modelo de inteligência artificial deepseek-chat.
Texto publicado em Poésies 123: https://www.poesies123.com/pt/poema-oh-pourquoi-voyager-jules-barbey-d-aurevilly-2/
