II
Era o sete de agosto. Ó destino sombrio!
Era o primeiro dia do seu último ano.
Sós num lugar real, lado a lado marchando,
Dois homens, por vezes do cotovelo se tocando,
Conversavam. Grande lembrança que no meu coração se grava!
O primeiro tinha o ar cansado, triste e grave,
Como uma fronte demasiado fraca que carrega um pesado projeto.
Uma dupla dragonha de coroa carregava
O seu uniforme verde de franja purpurina,
E a ordem e o tosão faziam sobre o seu peito,
Junto do largo cordão ondulado de azul cambiante,
Dois focos luminosos, um de ouro, outro de prata.
Era um rei; velho de cabeça embranquecida,
Curvado pelo peso dos anos e da monarquia.
O outro era um jovem estranho entre os reis,
Um poeta, um passante, uma inútil voz.
Falavam entre si, sem testemunhas, sem mistério,
Num grande gabinete, simples, nu, solitário,
Majestoso contudo. O que os homens fazem
Deixa uma marca nas paredes. Sob este mesmo teto
Tinham passado outrora, ó esplendores apagados!
Grandes acontecimentos e grandes pensamentos.
Aí, atrás das suas costas, cruzando as suas fortes mãos,
Abalando o soalho sob os seus passos sobre-humanos,
Muitas vezes o imperador quando era o senhor,
Da porta sonhando ia até à janela.
Num canto uma mesa, uma poltrona de veludo,
Miravam no parquet os seus pés dourados e pesados.
Por uma porta envidraçada, lá fora, o olho em multidão
Percebia ao longe armários de Boulle,
Vasos do Japão, lacas, esmaltes,
E castiçais de ouro de imensos ramos.
Um salão vermelho ornado de espelhos de Veneza,
Cheio desses bronzes gregos que o espírito diviniza,
Multiplicava sem fim os seus lustres de cristal;
E, como uma estátua de lâminas de metal,
Via-se, elmo na fronte, luzir no canto
Um guarda prateado e azul de uma altiva postura.
Ora entre o poeta e o velho rei curvado,
De que se tratava?
De um pobre anjo caído
Cuja alma o amor refazia com o seu hálito;
De Marion, lavada como Madalena,
Que coxeava e arrastava o seu passo aleijado,
A censura, serpente, tendo-a mordido no pé.
O poeta queria fazer numa noite aparecer
Luís treze, esse rei sobre quem reinava um padre;
— Todo um século, marqueses, carrascos, loucos, saltimbancos;
E que a multidão viesse, e que através de lágrimas,
Por momentos, num drama cintilante e sombrio,
Do pálido cardeal se julgasse ver passar a sombra.
O velho hesitava: — De que serve pôr a nu
Luís treze, esse rei raquítico e mal vindo?
De que serve remexer um morto numa tumba?
Que se quer? Para onde se corre? Sabe-se bem onde se cai?
Não está tudo já a desmoronar-se de todos os lados?
Não se vai tudo já embora numa liberdade excessiva?
Não é antes tempo, depois de quinze anos de provação,
De levantar o dique e parar o rio?
Certamente, um rei pode retomar o que deu.
Quanto ao teatro, é preciso, estando o trono minado,
Sufocar com ambas as mãos a sua chama demasiado ousada;
Pois a multidão é o povo, e de uma comédia
Pode jorrar a faísca de lívidos raios
Que põe fogo na sombra às revoluções. —
Depois negava a história, e, seja o que for,
A esse jovem sonhador disputava o seu antepassado;
Acolhendo-o aliás bem, bom, real, gracioso,
E interrogando-o sobre os seus próprios antepassados.
Deixando aos reis os nomes por que são chamados,
O poeta lutava firmemente, como um homem
Apaixonado pela liberdade, apaixonado pela arte,
Respeitoso contudo por esse nobre velho.
Dizia: — Tudo é grave neste século em que tudo pende.
A arte, tranquila e poderosa, quer uma andadura franca.
Os reis mortos são a sua presa; é preciso deixar-lha.
Não é inimiga; por que a irritar,
E entregá-la na sombra a torturadores,
Ela cuja mão fechada está cheia de trovões?
Essa mão, se a abrisse, temível enviado,
Sobre a França deslumbrada e o Louvre assustado,
Espantar-se-ia – demasiado tarde, se é preciso dizê-lo –
De ver subitamente tantos raios reluzirem aí!
Oh! os tiranos de baixo prejudicam o rei do alto.
O povo está sempre lá que toma a musa à letra,
Quando a indignação, até ao rei que se venera,
Sobe da fronte pensativa do artista severo!
— Senhor, no que vacila apoia-se bem?
A censura é um telhado mau, mal escorado,
Sempre pronto a cair sobre os nomes que abriga.
Senhor, um sopro imprudente, longe de o apagar, irrita
O foco, de repente terrível e giratório,
E de uma arte luminosa faz uma arte flamejante!
Aliás, mesmo que só se busque o esplendor real,
Para esta nação zombeteira, mas leal,
Em vez dos grandes quadros que oferecia o grande Luís,
Rei-sol, fecundando os lírios desabrochados,
Que, mantendo sob o seu cetro um mundo em equilíbrio,
Fazia Racine feliz, deixava Molière livre,
Que espetáculo, grande Deus! um grupo de censores
Armados e falando baixo, vis escravos caçadores,
De barriga para baixo deitados, espiando a hora em que regressa
O drama, leão orgulhoso, à história, sua cova! —
Aqui, vendo para ele, de fronte mais inclinada,
Voltar-se docemente esse velho espantado,
Arriscava mais longe o seu pensamento inquieto,
E, deixando de lado o drama e o poeta,
Atento, sondava o desígnio vasto e negro
Que no fundo desse rei triste acabara de entrever.
Seria possível? Alguém teria essa esperança?
Quebrar o direito de todos! Tirar à França,
Como se tira um brinquedo à criança zangada,
O ar, a luz, e a liberdade!
O rei não quereria! ele, rei sábio e rei justo!
Depois, escolhendo as palavras para esse ouvido augusto,
Dizia que os tempos têm ondas soberanas;
Que nada, nem pontes ousadas, nem canais subterrâneos,
Nunca, exceto Deus, nada detém e doma
O povo que cresce ou o oceano que sobe;
Que o mais forte navio naufraga e se perde muitas vezes
Quando quer romper de frente a vaga e o vento;
E que, para nele se quebrar, na luta insensata,
Tem-se atrás de si, rocha por toda a parte erguida,
Todo o seu século, os costumes, o espírito que se quer desafiar,
O próprio porto onde a nau poderia ter-se salvado!
Ousava assustar-se. Filho de uma Vendéenne,
Coração que já não tem amor, mas não tem ódio,
Suplicava que ao menos o acreditassem um momento,
Ele que sobre o passado se inclina gravemente,
E cuja piedade, hera que se enraíza,
Ai, se prende aos reis como a toda a ruína!
O destino tem por vezes formidáveis jogos.
Os reis devem sonhar nesses dias tormentosos
Em que, mar que vem, espírito dos tempos, nuvem obscura,
Atrás do horizonte qualquer coisa murmura!
De que serve provocar de antemão e levantar
As gerações que se ouvem chegar?
Para olhares distraídos a França estava serena;
Mas nesse céu perturbado por um pouco de bruma apenas,
Onde tudo parecia azul, onde nada agitava o ar,
Ele, sonhador, via por instantes um relâmpago! —
Carlos dez sorrindo respondeu: — Ó poeta!
À noite, tudo radiava de luz e de festa.
Transbordando de soldados, de príncipes, de criados,
Saint-Cloud alegre e verde, em torno do altivo palácio
Cuja Sena ao fugir reflete os belos mármores,
Parecia com amor apertar o seu tufo de árvores.
O arco de triunfo ornado de vitórias de bronze,
O Louvre cintilante, flor-de-lisado, sereno,
Respondiam-lhe de longe do meio da cidade;
Todo esse conjunto real tinha um ar tranquilo,
E, no calmo aspeto de um repouso solene,
Não sei que de grande que parecia eterno.
Holyrood! Holyrood! ó fatal abadia,
Onde a lei do destino, dura, amarga, obedecida,
Se inscreve de todos os lados!
Claustro! palácio! túmulo! que sob os teus muros austeros
Guardas os reis, a morte e Deus; três grandes mistérios,
Três sombrias majestades!
Castelo descoroado! Vale expiatório!
Onde o pensador ouve no ar e na história,
Como um duplo conselho para as nossas ambições,
Como uma dupla voz que se mistura e que troveja,
O rumor do mar profundo,
E o ruído afastado das revoluções!
Solidão onde por vezes das colinas próximas
Se veem vir os corços que pisam sob os carvalhos
A relva adormecida,
E que, para aspirar o vento na clareira,
Assustados, estremecendo, sobre as patas traseiras
Se erguem a meio!
Orgulhosa igreja onde orava o rei dos tempos antigos,
Grave, tendo por pavimento sob as arcadas góticas
Os túmulos paternos que gastava com o joelho!
Porta onde soberbamente tantos archeiros e guardas
Velavam, multiplicando o relâmpago das alabardas,
E que um pastor hoje fecha com um prego velho!
Pátria onde, quando a guerra agitava as suas margens,
Os grandes lordes montanheses contavam os seus clãs selvagens
E os seus negros batalhões;
Onde agora sobre a relva, ao sol, sob heras,
As velhas de pés descalços que caminham nas pedras
Fazem secar farrapos!
Holyrood! Holyrood! a silva está sobre as tuas lajes.
O cabrito pasta ao pé das tuas torres feudais.
Ó fúria dos rivais ardentes em se procurar!
Amores! — Darnley! Rizzio! que nada é o vosso!
Ambos estão lá, — um junto do outro; —
Um é uma sombra, e o outro uma mancha no soalho!
Ai! que lições sob as tuas abóbadas fúnebres!
Oh! que ensinamentos se leem nas trevas
Sobre o teu limiar derrubado,
Sobre os teus muros todos marcados de uma estranha fortuna,
Vagamente iluminados nesse reflexo de lua
Que o passado projeta!
Ó palácio, sê bendito! sede bendita, ó ruína!
Que uma augusta auréola para sempre te ilumine!
Diante das tuas negras ameias, piedosos, nós nos curvamos,
Pois o velho rei de França encontrou sob a tua sombra
Esta hospitalidade melancólica e sombria
Que se recebe e que se devolve de Stuarts a Bourbons!
Victor Hugo
Tradução gerada por Poésies 123 com o apoio do modelo de inteligência artificial deepseek-chat.
Texto publicado em Poésies 123: https://www.poesies123.com/pt/poema-o-sete-de-agosto-de-mil-oitocentos-e-vinte-e-nove-victor-hugo/
