… Eis o banco rústico onde se sentava meu pai,
A sala onde ressoava sua voz máscula e severa,
Quando os pastores, sentados sobre seus arados derrubados,
Contavam-lhe os sulcos traçados a cada hora,
Ou ainda palpitante das cenas de sua glória,
Do cadafalso dos reis ele nos contava a história,
E, cheio do grande combate que havia travado,
Ao narrar sua vida ensinava a virtude!
Eis o lugar vazio onde minha mãe a toda hora
Ao mais leve suspiro saía de sua morada,
E, fazendo-nos levar ou a lã ou o pão,
Vestia a indigência ou alimentava a fome;
Eis os telhados de colmo onde sua mão atenta
Derramava sobre a ferida ou o mel ou a azeitona,
Abria junto ao leito dos velhos moribundos
Aquele livro onde a esperança é permitida aos que morrem,
Recolhia seus suspiros sobre sua boca oprimida,
Fazia voltar para Deus seu último pensamento,
E, segurando pela mão os mais jovens de nós,
À viúva, à criança, que caíam de joelhos,
Dizia, enxugando as lágrimas de suas pálpebras:
Dou-vos um pouco de ouro, devolvei-lhes vossas preces!
Eis o limiar, à sombra, onde seu pé nos embalava,
O ramo da figueira que sua mão abaixava,
Eis a estreita vereda onde, quando o bronze sonoro
No templo distante vibrava com a aurora,
Subíamos sobre suas pegadas ao altar do Senhor
Oferecer dois puros incensos, inocência e felicidade!
É aqui que sua voz piedosa e solene
Nos explicava um Deus que sentíamos nela,
E, mostrando-nos a espiga em seu gérmen encerrado,
O cacho destilando sua bebida perfumada,
A novilha em leite puro transformando o suco das plantas,
O rochedo que se entreabre às fontes a jorrar,
A lã das ovelhas roubada aos ramos
Servindo para tapizar os doces ninhos dos pássaros,
E o sol exato em suas doze moradas,
Repartindo pelos climas as estações e as horas,
E esses astros das noites que só Deus pode contar,
Mundos onde o pensamento ousa apenas subir,
Ensinava-nos a fé pelo reconhecimento,
E fazia admirar à nossa simples infância
Como o astro e o inseto invisível a nossos olhos
Tinham, assim como nós, seu pai nos céus!
Essas charnecas, esses campos, essas vinhas, esses prados,
Têm todos suas recordações e suas sombras queridas.
Lá, minhas irmãs folgavam, e o vento em seus jogos
Seguia-as brincando com seus cabelos loiros!
Lá, guiando os pastores aos cumes das colinas,
Acendia fogueiras de lenha morta e espinhos,
E meus olhos, suspensos às chamas do lar,
Passavam hora após hora a vê-las ondular.
Lá, contra a fúria do aquilão rápido
O salgueiro cavernoso emprestava-nos seu tronco vazio,
E eu ouvia assobiar em sua folhagem morta
Brisas cuja harmonia minha alma guardou.
Eis o choupo que, debruçado sobre o abismo,
Na estação dos ninhos nos embalava em seu cimo,
O riacho nos prados cujas águas adormecidas
Submergiam lentamente nossos barcos de canas,
O carvalho, o rochedo, o moinho monótono,
E o muro ao sol onde, nos dias de outono,
Eu vinha sobre a pedra, sentado perto dos velhos,
Seguir o dia que morre com meus últimos olhares!
Tudo ainda está de pé; tudo renasce em seu lugar:
De nossos passos na areia ainda se segue o rasto;
Nada falta a esses lugares senão um coração para deles gozar,
Mas, ai! a hora baixa e vai-se esvair.
A vida dispersou, como a espiga na eira,
Longe do campo paterno os filhos e a mãe,
E esse lar querido parece-se com os ninhos desertos
De onde a andorinha fugiu durante longos invernos!
Já a erva que cresce sobre as lajes antigas
Apaga em torno dos muros os caminhos domésticos
E a hera, flutuando como um manto de luto,
Cobre pela metade a porta e rasteja sobre o limiar;
Talvez em breve…! afasta, ó meu Deus! este presságio!
Talvez em breve um estrangeiro, desconhecido da aldeia,
Venha, o ouro na mão, apoderar-se destes lugares
Que ainda habita para nós a sombra de nossos antepassados,
E de onde nossas recordações dos berços e dos túmulos
Fugirão à sua voz, como um ninho de pombas
Cujo machado cortou a árvore nas florestas,
E que já não sabem onde pousar depois! …
Alphonse de Lamartine
Tradução gerada por Poésies 123 com o apoio do modelo de inteligência artificial deepseek-chat.
Texto publicado em Poésies 123: https://www.poesies123.com/pt/poema-milly-ou-a-terra-natal-ii-alphonse-de-lamartine/
