Muito tempo escutei teus doces sussurros,
Musa ou demónio dos dias atuais. Mas tu mentes!
Vinde Ninfas, com vossas longas cabeleiras;
Cantai, rouxinóis mortos outrora nos ramos,
Perfumes de outrora, perfumes de lá: meu tédio
Quer esquecer-se, em vós, dos odores de hoje.
Vinde Silvanos, vinde Faunos, vinde Dríades!
Tanto sofremos por viver nestes tempos insípidos.
Vinde Dríades e Silvanos! dançai em roda
Sobre os relvados! Vem, Baco, e riremos
Vem! Que fazes tu lá, no fundo da Ásia?
Tuas mulheres ébrias, e teus tigres?… fantasia
De vetiver, de almíscar, de bétel, de sândalo;
Essas mulheres com seus adornos de metal,
Esses rubis, essas safiras, essas flores, veneno que embala,
Não valem a Europa impassível e perversa.
Vem! Eis que se ergue o grande carvalho, o pinheiro;
Vem ao país feliz do vinho fresco, do bom pão.
Eis a Hélade! Vamos ter festas
Mais claras que os mais belos sonhos dos profetas.
Vem pois ver estes riachos, este céu, estas oliveiras,
Estes montes de onde se tiraram os mármores invejados.
Passeemos. Vê pois estes homens e estas mulheres
De quem sempre restarão as formas e as almas;
As mulheres, através do cortinado dos caniços,
Que nadam, tagarelando mais alto que os pássaros;
Os homens, recitando versos sob os pórticos,
Interrompem-se com risonhas críticas.
Seguem o caminho que bordejam os túmulos,
Pois neste país, até os mortos são belos;
E Platão, através de sua barba de ondas louras,
Melodiosamente, diz a canção dos mundos.
Praxíteles vai-se embora, lá longe, com Vénus
Que esculpiu e a quem deve bem os seus seios nus…
No mercado, colorido de limões, de tomates,
Vê essas vendedoras de nariz direito, de palidez mate;
Aristófanes ri e se desentende com
Essas fruteiras sem vergonha no mais puro acento grego.
Basta de vossos saquinhos, filhas da Tessália!
Vamos mais longe, passemos a viela sujada
Por cascas de couve e vagens de ervilha.
Vamos mais longe ainda, vamos aos lugares
Onde a flauta suspira, onde a harpa ressoa.
Oh! não é Orfeu, Homero nem ninguém
Que nos farão ouvir aqui, mas canções
Que se esquecem e sempre se refarão. Passemos.
E esses templos e esses monumentos de vitória
Inesperada, em que a razão não pudera crer!
Sobre esses mármores âmbar, que palavras vermelhas se leem?
Mortos em Plateia, em Salamina, em Maratona!
São as lembranças imortais das batalhas
Onde dez mil Atenienses – ou seja, dez mil canalhas,
Mataram por acaso cem mil bons Persas
Bem armados, bem alimentados, bem alinhados, bem pesados.
A Ágora! como se discute, como se agita!
Mas conheço demasiado bem essa maré humana;
Sonhei, Baco? Essas palavras, esses gritos,
Esses homens de negócios, isso lembra-me Paris.
Vinde Silvanos, vinde Faunos, vinde Dríades!
Vinde! Os dias presentes já não serão tão insípidos.
Ponde gravatas, Silvanos; Faunos, calçai luvas;
Dríades, mostrai-nos vossos chapéus arrogantes,
Vamos cear, Baco! Paris vale bem Atenas.
Deixo sem pesar minhas visões distantes.
Oh! Embala-me sempre com teus sussurros,
Musa ou demónio dos dias atuais e encantadores.
Charles Cros
Tradução gerada por Poésies 123 com o apoio do modelo de inteligência artificial deepseek-chat.
Texto publicado em Poésies 123: https://www.poesies123.com/pt/poema-evocacao-charles-cros/
