A poesia sagrada

Poema de Alphonse De Lamartine Coleção Meditações PoéticasÉpoca Século XIX

DITIRAMBO.

A M. Eugène de Genoude.

Sua fronte é coroada de palmas e estrelas;
Seu olhar imortal, que nada pode toldar,
Atravessando todos os tempos, erguendo todos os véus,
Desperta o passado, mergulha no futuro!
Do mundo sob seus olhos os fastos se desenrolam,
Os séculos a seus pés como um torrente se escoam;
A seu grado descendo ou subindo seus cursos,
Ela soa aos túmulos a hora, a hora fatal,
Ou em sua lira virginal
Canta ao mundo envelhecido este dia, pai dos dias!

——

Escutai! – Jeová se lança
Do seio de sua eternidade.
O caos adormecido desperta em sua presença,
Sua virtude o fecunda; e sua onipotência
Repousa sobre a imensidão!

Deus disse, e o dia foi; Deus disse, e as estrelas
Da noite eterna clarearam os véus;
Todos os elementos diversos
A sua voz se separaram;
As águas de repente se escoaram
No leito cavado dos mares;
As montanhas se elevaram,
E os aquilões voaram
Nos livres campos dos ares!

Sete vezes de Jeová a palavra fecunda
Se fez ouvir ao mundo,
E sete vezes o nada a sua voz respondeu;
E Deus disse: Façamos o homem à minha viva imagem.
Disse, o homem nasceu; a esta última obra
O Verbo criador se detém e se aplaude!

——

Mas não é mais um Deus! – É o homem que suspira
Éden fugiu!… eis o trabalho e a morte!
Nas lágrimas sua voz expira;
A corda da felicidade se quebra em sua lira,
E Jó tira dela um som triste como o destino.

——

Ah! pereça para sempre o dia que me viu nascer!
Ah! pereça para sempre a noite que me concebeu!
E o seio que me deu o ser,
E os joelhos que me receberam!

Que do número dos dias Deus para sempre o apague;
Que, sempre escurecido pelas sombras da morte,
Este dia entre os dias não encontre mais seu lugar,
Que seja como se não existisse!

Agora no esquecimento eu dormiria ainda,
E acabaria meu sono
Nessa longa noite que não terá aurora,
Com esses conquistadores que a terra devora,
Com o fruto concebido que morre antes de desabrochar
E que não viu o sol.

Meus dias declinam como a sombra;
Eu gostaria de precipitá-los.
Ó meu Deus! cortai o número
Dos sóis que devo contar!
O aspecto de minha longa infortúnio
Afasta, repele, importuna
Meus irmãos cansados de meus males;
Em vão me dirijo à sua multidão,
Sua piedade me escapa e se escoa
Como a onda no flanco dos outeiros.

Como uma nuvem que passa,
Minha primavera se desvaneceu;
Meus olhos não verão mais o traço
De todos esses bens de que gozei.
Pelo sopro da cólera,
Ai! arrancado da terra,
Vou de onde não se volta jamais!
Meus vales, minha própria morada,
E este olho mesmo que me chora,
Nunca mais reverão meus passos!

O homem vive um dia sobre a terra
Entre a morte e a dor;
Saciado de sua miséria,
Ele cai enfim como a flor;
Ele cai! Ao menos pelo orvalho
Das flores a raiz regada
Pode um momento reflorir!
Mas o homem, ai!, após a vida,
É um lago cuja água se esvaiu:
Procura-se, ele acaba de secar.

Meus dias fundem como a neve
Ao sopro do furor divino;
Minha esperança, que ele abrevie,
Foge como a água de minha mão;
Abri-me meu último asilo;
Lá, tenho na sombra um leito tranquilo,
Leito preparado para minhas dores!
Ó túmulo! vós sois meu pai!
E eu digo aos vermes da terra:
Vós sois minha mãe e minhas irmãs!

Mas os dias felizes do ímpio
Não se eclipsam pela manhã;
Tranquilo, ele prolonga sua vida
Com o sangue do órfão!
Ele estende ao longe suas raízes;
Como um rebanho sobre as colinas,
Sua família cobre Segor;
Depois num rico mausoléu
Ele está deitado no vale,
E dir-se-ia que vive ainda.

É o segredo de Deus, calo-me e o adoro!
É sua mão que traçou os caminhos da aurora,
Que pesou o Oceano, que suspendeu os céus!
Para ele, o abismo está nu, o inferno mesmo está sem véus!
Ele fundou a terra e semeou as estrelas!
E quem sou eu a seus olhos?

——

Mas a harpa tremeu sob os dedos de Isaías;
De seu seio borbulhante a ameaça em longos fluxos
Escapa; um Deus o chama, ele se lança, ele grita:
Céus e terra, escutai! silêncio ao filho de Amós!

——

Osias não existia mais: Deus me apareceu; eu vi
Adonai vestido de glória e de espanto!
As bordas deslumbrantes de sua túnica flutuante
Enchiam o sagrado átrio!

Serafins de pé sobre degraus de marfim
Velavam-se diante dele com seis asas de fogo;
Voando de um a outro, diziam entre si:
Santo, santo, santo, o Senhor, o Deus, o rei dos deuses!
Toda a terra está cheia de sua glória!

Do templo a estas palavras a abóbada se abalou.
Adonai fugiu sob a nuvem inflamada:
O lugar santo encheu-se de torrentes de fumaça.
A terra sob meus pés tremeu!

E eu! eu ficaria num covarde silêncio!
Eu que te vi, Senhor, não ousaria falar!
A este povo impuro que te ofende
Eu temeria revelar-te!

Quem marchará por nós? diz o Deus dos exércitos.
Quem falará por mim? diz Deus: Quem? eu, Senhor!
Toca meus lábios inflamados!
Aqui estou! estou pronto!… infortúnio!

Infortúnio a vós que desde a aurora
Respirais os perfumes do vinho!
E que a noite encontra ainda
Cambaleantes nas bordas do festim!
Infortúnio a vós que pela usura
Estendeis sem fim nem medida
O marco imenso de vossos campos!
Quereis então, mortais ávidos,
Habitar em vossos campos áridos,
Sós, sobre a terra dos viventes?

Infortúnio a vós, raça insensata!
Filhos de um século audacioso,
Que dizeis em vosso pensamento:
Somos sábios a nossos olhos:
Vós mudais minha noite em luz,
E o dia em sombra grosseira
Onde se escondem vossas volúpias!
Mas, como um touro na planície,
Arrastais após vós a corrente
De vossas longas iniquidades!

Infortúnio a vós, filhas da onda!
Ilhas de Sidon e de Tiro!
Tiranos! que traficais do mundo
Com a púrpura e o ouro de Ofir!
Infortúnio a vós! vossa hora soa!
Em vão o Oceano vos coroa,
Infortúnio a ti, rainha das águas,
A ti que, sobre mares novas,
Fazes ressoar como asas
As velas de mil navios!

Eles enfim chegaram os dias de minha justiça;
Minha cólera, diz Deus, transborda sobre vós!
Mais incenso, mais sacrifício
Que possa extinguir meu furor!

Entregarei este povo à morte, à carnificina;
O ferro ceifará como a erva selvagem
Seus batalhões inteiros!
– Senhor! poupai-nos! Senhor! – Não, nenhuma trégua,
E farei sobre ele correr de minha espada
O sangue de seus guerreiros!

Seus torrentes secarão sob meu hálito ardente;
Minha mão nivelará, como uma vasta planície,
Seus muros e seus palácios;
O fogo os queimará como queima a palha.
Lá, mais nenhuma nação, cidade, reino;
O silêncio para sempre!

Seus muros se cobrirão de silvas e espinhos;
A hiena e a serpente povoarão suas ruínas;
Os mochos, os abutres,
Um ao outro chamando durante a noite escura,
Virão a seus pequenos trazer o alimento
No cume de suas torres!

——

Mas Deus fecha a estas palavras os lábios de Isaías;
O sombrio Ezequiel
Sobre o tronco secado do ingrato Israel
Faz descer por sua vez a palavra de vida.

——

O Eterno levou meu espírito ao deserto:
De ossos secados o solo estava coberto;
Aproximo-me estremecendo; mas Jeová me grita:
Se eu falar a estes ossos, retomarão eles a vida?
– Eterno, tu o sabes! – Pois bem! diz o Senhor,
Escuta meus acentos! retém-nos e dize-lhes:
Ossos secados! insensível poeira!
Levantai-vos! recebei o espírito e a luz!
Que vossos membros dispersos se reúnam à minha voz!
Que o espírito vos anime uma segunda vez!
Que entre vossos ossos murchos vossos músculos se recoloquem!
Que vosso sangue circule e vossos nervos se entrelacem!
Levantai-vos e vivei, e vede quem eu sou!
Escutei o Senhor, obedeci e disse:
Espíritos, soprai sobre eles do poente, da aurora;
Soprai do aquilão, soprai!… Pressionados por eclodir,
Estes restos do túmulo, despertados por meus gritos,
Entrechocam de repente seus ossos murchos;
Às claridades do sol suas pálpebras se reabrem,
Seus ossos estão reunidos, e a carne os recobre!
E este campo da morte todo inteiro se levantou,
Tornou a ser um grande povo, e conheceu Jeová!

——

Mas Deus de seus filhos perdeu a memória;
A filha de Sião, meditando suas desgraças,
Senta-se suspirando, e, viúva de sua glória,
Escuta Jeremias, e reencontra lágrimas.

——

O Senhor, acabrunhando-me com o peso de sua cólera,
Retira por sua vez e traz de volta sua mão;
Vós que passais pelo caminho,
Existe miséria igual à minha miséria?

Em vão minha voz se eleva, ele não ouve mais minha voz;
Ele me escolheu por alvo de suas flechas de chama,
E todo o dia contra minha alma
Sua fúria lançou os filhos de seu carcás!

Sobre meus ossos consumidos minha pele secou;
As crianças cantaram-me em suas zombarias;
Sozinho, no meio das nações,
O Senhor me atirou como uma erva arrancada.

Ele se envolveu de seu divino furor;
Ele fechou meu caminho, ele perturbou minha estrada;
Meu seio não conheceu mais a alegria,
E eu disse ao Senhor: Senhor, lembrai-vos,
Lembrai-vos, Senhor, desses dias de cólera;
Lembrai-vos do fel com que me nutristes;
Não, vosso amor não está esgotado:
Vós me feris, Senhor, e é por isso que espero.

Eu repasso chorando esses miseráveis dias;
Conheci o Senhor desde minha mais tenra aurora:
Quando ele pune, ele ama ainda;
Ele não se afastou, minha alma, para sempre.

Feliz quem o conhece! feliz quem desde a infância
Suportou o jugo de um Deus, clemente em seu rigor!
Ele crê na salvação do Senhor,
Senta-se à beira do rio e o espera em silêncio.

Ele sente pesar sobre si este jugo de vosso amor;
Ele derrama na noite suas lágrimas e sua prece,
E a boca na poeira,
Ele invoca, ele espera, ele aguarda vosso dia.

——

Silêncio, ó lira! e vós silêncio,
Profetas, voz do porvir!
Todo o universo se cala de antemão
Diante daquele que deve vir!
Fechai-vos, lábios inspirados;
Repousai, harpas sagradas,
Até o dia em que sobre os altos lugares
Uma voz ao mundo desconhecida,
Fará ressoar nas nuvens:
PAZ À TERRA, E GLÓRIA AOS CÉUS!

Alphonse de Lamartine

Tradução gerada por Poésies 123 com o apoio do modelo de inteligência artificial deepseek-chat.

Texto publicado em Poésies 123: https://www.poesies123.com/pt/poema-a-poesia-sagrada-alphonse-de-lamartine/