“”Meu irmão, sabes a nova?
Mouflar, o bom Mouflar, modelo dos nossos cães,
tão temido pelos lobos, tão submisso ao pastor,
Mouflar, dizem, acaba de comer
o pequeno cordeiro negro, depois a ovelha sua mãe,
e depois atirou-se furioso ao pastor.
-Será verdade? -Muito verdade, meu irmão.
-Em quem confiar, grandes deuses!””
Assim falavam dois carneiros na planície;
e a nova era certa.
Mouflar, apanhado em flagrante,
já só esperava o suplício;
e o fazendeiro queria que uma pronta justiça
aterrasse os cães da região.
O processo num dia é concluído.
Mil testemunhas por uma depõem o atentado:
acareadas, confrontadas, nenhuma delas varia;
Mouflar é convencido do triplo assassínio:
Mouflar receberá, portanto, duas balas na cabeça
no próprio local do delito.
Ao seu suplício que se prepara
toda a fazenda acorreu.
Os cordeiros de Mouflar pediram a graça;
foi recusada. Fizeram-nos tomar lugar:
os cães alinharam-se perto deles,
tristes, humilhados, taciturnos, orelhas baixas,
lamentando, sem o desculpar, o seu irmão infeliz.
Todos esperavam num profundo silêncio.
Mouflar aparece logo, conduzido por dois pastores:
chega; e, erguendo ao céu os olhos em lágrimas,
assim discursa à assistência:
“”Ó vós, que neste momento não ouso e não posso
nomear, como outrora, meus irmãos, meus amigos,
testemunhas da minha última hora,
vede aonde pode conduzir um desejo culpado!
Da virtude quinze anos segui a carreira,
um falso passo dela me fez sair.
Ouvi os meus crimes. Ao nascer da aurora,
sozinho, junto ao grande bosque, guardava o rebanho;
um lobo vem, leva um cordeiro,
e, ao fugir, devora-o.
Corro, alcanço o lobo, que, deixando o seu festim,
vem atacar-me: derrubo-o,
e estrangulo-o no local.
Até aí estava bem: mas, pressionado pela fome,
do cordeiro devorado olho o resto,
hesito, vacilo… por fim, contudo,
levo-lhe uma culpada dentada:
eis a origem funesta das minhas desgraças.
A ovelha chega nesse instante,
lança gritos de mãe….
a cabeça girou-me, temi que a ovelha
me acusasse de ter assassinado o seu filho;
e, para a forçar a calar-se,
degolei-a na minha cólera.
O pastor acorria armado do seu bastão.
Não esperando mais nenhum perdão,
atiro-me a ele: mas logo me acorrentam,
e eis-me pronto a sofrer
dos meus crimes a justa pena.
Aprendei todos ao menos, vendo-me morrer,
que a mais leve injustiça
pode conduzir primeiro aos maiores crimes;
e que, no caminho do vício,
se está no fundo do precipício,
logo que se põe um pé na borda.””
Florian
Tradução gerada por Poésies 123 com o apoio do modelo de inteligência artificial deepseek-chat.
Texto publicado em Poésies 123: https://www.poesies123.com/pt/fabula-o-cao-culpado-jean-pierre-claris-de-florian/
