Musa, um tal Ségur, bispo, é-me hostil

Poema de Victor Hugo Época Século XIX

Musa, um tal Ségur, bispo, é-me hostil;
Este homem violeta condena-me em mau estilo;
A sua prosa alegra os mochos nas suas covas.
Ó Musa, não tenhamos contra ele iras.
Deixemos-lhe esse brinquedo que ele toma por trovão,
O seu ódio.

De resto, é de lastimar. No seminário,
Um dia em que este homenzinho cheio de tédio
Balava um oremus ao acaso diante de si,
Como cacareja o ganso, como muge a vaca,
Ele exclamou: — Meu Deus! Quem me dera ser cego! —
Não achando que fizesse noite bastante assim.
O bom Deus, fazendo-o idiota, atendeu-o.

O insulto hoje está muito aperfeiçoado.
Pega-se um pouco de fuligem numa chaminé,
Um pouco de imundície ao canto de um marco, no esgoto
Da lama, e isso faz as vezes de espírito, de gosto,
De bom senso, de sintaxe e de honra; é a moda.
Bons ulemás, tal é o processo cómodo
Que o vosso zelo põe ao serviço do céu,
E é com a boca espumando fel,
Com a diatribe em vez de sorriso,
Que vindes, condenando aqueles que não ousam proscrever,
Fazer-nos os vossos grandes olhos, mostrar-nos os vossos grandes punhos,
Dizer-nos as vossas grandes palavras, ó nossos caros talapoins!

Perdoa-se-vos. Então, quê, Ségur exorciza-me.
E depois?

Ele amaldiçoa-me de forma concisa;
Pinta-me o melhor que pode, e eis o pastel
Mais ou menos:

— «Monstro horrível. Nunca se viu tal.
Informe, espantoso e tenebroso. Um homem
Que queimaria Paris e demoliria Roma.
Voluptuoso. Um pouco o chefe dos assassinos.
Em suma, capaz de tudo. Calcando aos pés os santos,
As leis, a igreja e Deus. Arruinando o seu livreiro.»
Façamos coro. Uivar com o lobo, e zurrar
Com o bispo, ora bem, é um direito. Usemo-lo.
Amo neste nobre abade este estilo campónio.
É plebeu, é delicioso. Bravo. Isso mergulha-vos
Numa vaga êxtase onde se sente a mentira.
Doce padre! Ouvimos rir às gargalhadas Diderot,
Molière, Rabelais, e não se sabe bem,
Nessa visão onde o demónio segreda,
Se se vê um bispo tendo nas costas o cesto
Ou bem um trapeiro tendo a mitra na fronte.
A antífona, quando um pouco de baba a interrompe,
Tem encanto; é-se padre e tem-se bílis.
De resto, Musa, cada um na terra tem o seu Zoilo,
E Voltaire tem Fréron como Dante tem Cecchi.
E depois isso vende-se. Quanto? Seis sous. A quem? Aos tolos. É um público. As mandíbulas fósseis
Querem rir; o clã zombeteiro dos imbecis
Quer que os divirtam; é muito numeroso hoje;
Não tem então o direito de que se trabalhe para ele?
Desde quando já não é permitido encher os cântaros?
Tudo tem o seu instinto. Como um zangão voa às colmeias,
Como a Lucrécia no leito corre Alexandre seis,
Como Coridon segue o encantador Alexis,
Como um lobo segue os bodes, e o bode as cítisos,
Como abril faz flores, Ségur faz tolices.
É preciso.

Musa, convém que o sábio indulgente
Sonhe, escute, e se torne um bom homem sonhando,
Que olhe passar os vivos, que os pese,
E que em vez de o azedar, este espetáculo o apazigue.
Assim seja.

E depois, vamos ao facto. Vejamos,
Sou correto? A hóstia com todos os seus raios
Deslumbra-me tanto como o sol? Este padre
Vê-me ao domingo na sua missa aparecer?
Alguma vez fiz mesmo que fosse de querer
Contar-lhe os meus pecados baixinho no seu confessionário?
Quando fui eu a casa dele, renegando a minha doutrina,
Dar-me grandes punhadas no peito?
Sou um endurecido. Ségur apercebe-se disso.
Sou ateu ao ponto de duvidar que Deus seja
Encantado de aquecer as mãos no fogo do diabo,
Que tenha posto o incurável e o irremediável
No homem, ser ignorante, fraco, débil, carnal,
A fim de o fazer homenagem ao suplício eterno,
Que tenha de propósito metido Satanás na natureza,
E que ele, o autor de toda criatura,
Podendo esvaziar o inferno e fechá-lo à chave,
Tenha feito um braseiro, a fim de criar um queimado;
Que os mil sóis cujo fogo lá em cima treme
Se ponham um belo dia a cair todos juntos,
Duvido; e quando vejo, no fundo do zénite azul,
Os sete astros da Ursa acesos, acredito pouco
Que o teto celeste algum dia se desmorone
Até não poder mais sustentar este candelabro.
Sei que na bíblia se encontra este cliché,
O Fim do Mundo; mas a ciência avançou.
Moisés é velho; há na terra um quadrumano
Que levante ao céu os olhos para ver chover o maná?
Acho por vezes mais espírito, digo-o,
Nos macacos de agora que nos homens de outrora.
Papa, Deus, não é a mesma personagem.
Amo a catedral e não a Idade Média.

Que é um dogma, um culto, um rito? Um objeto de arte.
Posso admirá-lo; mas se extravia um soldado,
Se embebeda um louco, se mata um homem, abomino-o.
Mais ídolo! E oponho ao incenso o heléboro.
Quando uma abadessa, a quem alguma freira desagrada,
Faz-lhe pastar erva ao lado de um macho,
Ouso dizer que é mal alimentar uma mulher;
Admiro uma árvore em flor mais que uma fogueira em chamas;
Sou pouco furioso; amo Voltaire enfim
Mais que são Cupertino e que são Cucufino,
E prefiro a tudo o que diz são Pancrácio,
São Lopo, são Labro ou são Pacómio, um verso de Horácio.
Tais são os meus gostos. Sou incorrigível. E quando
Floréal, como um chefe que desperta o acampamento,
Põe os ninhos em rumorejo, e quando o meu verso patinha
Perdido, no tomilho, na verbena e na salva,
Quando a planície está em alegria, e quando a aurora está em fogo,
Creio simplesmente, estupidamente em Deus.

Ao mesmo tempo tenho a alma asperamente embriagada
Do sombrio tédio de ver tantos homens em libré,
Tantos lutos, tantas frontes curvadas, tantos corações baixos,
Lá, tantos leitos de púrpura, e aqui, tantos catres.
O meu Deus não é pagão, nem cristão, nem bíblico;
Esse Deus, imploro-o na dor pública;
É para ele que estou voltado, velho lutador cansado,
Quando grito no meio das trevas: — Ai de mim!
Na praia que bate todo o mar humano,
Praia onde a fluxo traz, onde o refluxo reenvia
As ondas hediondas lançando espuma aos alcíones,
Quem então trará na sombra às nações
Ou o relâmpago de Paris ou o raio de França?
Quem então reacenderá esse farol, a esperança? —

Portanto tenho esse grave erro de não ser devoto;
Não o sou mesmo para o partido que prevalece;
Não gosto que depois da vitória se seja cruel;
É horrível, eu perdoo; e estou ao serviço
Dos vencidos; e, pensando que a minha mãe acossada
Foi outrora vendeana, em fuga nos bosques,
Ouso fazer a propaganda da piedade;
Sou o filho bandido de uma mãe bandida.
Ser clemente é ser atroz; ou pelo menos,
Estúpido. Sou-o, sempre, diante de testemunhas,
Em toda a parte. Os outros são os abutres; eu sou o ganso.
Sim, quando a cobardia pública se desdobra,
Agrada-me estar só e ser o último.
Quando o væ victis reina, e vai até negar
A quantidade de direito que resta aos que tombam,
Quando, ninguém protestando, os princípios sucumbem,
Essa fuga de todos atrai-me. Eis-me aqui.

Como se quer que um padre aceite tudo isso!

Victor Hugo

Tradução gerada por Poésies 123 com o apoio do modelo de inteligência artificial deepseek-chat.

Texto publicado em Poésies 123: https://www.poesies123.com/pt/poema-musa-um-tal-segur-bispo-e-me-hostil-victor-hugo/