Tomei por senhor, um dia, uma rude amante,
Mais feroz que um jaguar, mais ruiva que um leão!
Amava-a ardentemente, asperamente, sem ternura,
Com posse mais que adoração!
Era a minha raiva! a última loucura
Que agarra, ? quando, tocado pela idade e pela desgraça,
Sente-se no fundo de si a juventude finda…
Pois o sol dos dias ainda sobe na vida,
Enquanto vai baixando no coração!
Amava-a e nunca tinha dela o bastante!
Dizia-lhe: «Demónio dos últimos amores,
Salamandra do inferno, de embriaguez mortal,
Quando os corações estão tão frios, incendeia-me sempre!
Verte em teus fogos os fogos que lamento,
Esses belos fogos que outrora acendia com um olhar!
Rejuvenesce o sonhador, reaquece o poeta,
E, já que é preciso morrer, que eu morra, ó Menina!
Sob tuas mordidas de jaguar!»
Então tomava-a, em seu espartilho de vidro,
E sobre meu lábio em fogo, que ela ainda inflamava,
Gostava de a inclinar, taça ardente e leve,
Essa beleza ruiva, esse veneno em ouro!
E eram beijos!… Nunca, nunca vampiro
Sugou de uma criança o colo encantador e fresco
Como eu sugava, ó minha ruiva hetera,
O lábio de cristal onde bebia meu delírio
E sobre o qual tu queimavas!
E sentia então teu hálito fulminante
Que passava no meu e, caindo no meu coração,
Redobrava a vida, apagava a pena,
E por alguns instantes reavivava o ardor!
Então, Filha do Fogo, amante sem rival,
Gostava de me sentir incendiado por ti
E queria adormecer, o ar alegre, a fronte pálida,
Sobre uma fogueira brilhante, como Sardanapalo,
E a fogueira estava em mim!
«Ah! ao menos essa sabe permanecer-nos fiel, ?
Dizia a mim mesmo, ? e a mão encontra-a sempre,
Sempre pronta para quem a ama e vive sedento dela,
E quer em seu amor perder todos os seus amores!»
Um dia elas vão-se, nossas mais queridas amantes;
Por elas, do Esquecimento bebemos o veneno,
Enquanto essa Ruiva, indomável às carícias,
Pode matar-nos também, ? mas à força de embriaguezes,
E não pela traição!
E preferia-a, feroz, mas sincera,
A essas doces belezas, de sorriso enganador,
Pagando os corações leais com um amor de falsário!…
Sabia sobre que coração dormia sobre o seu coração!
O ouro que me vertia e que dourava minha vida,
Soleando em minha taça, era um verdadeiro tesouro!
Por isso não era para o tempo de uma orgia,
Mas para a eternidade, que a tinha escolhido:
Minha companheira até à morte!
E sempre agarrada a mim como uma escrava,
Pois o tirano se prende aos ferros que faz carregar,
Levava-a por toda a parte no seu frasco de lava,
Minha topázio de fogo, sempre prestes a rebentar!
Sentia por ela um amor de corsário,
Um amor de selvagem, desenfreado, louco, ardente!
Esse amor que Hégésippe tinha, na sua miséria,
Que nos serve de tudo, quando a vida é amarga,
E que fez morrer Sheridan!
E era um amor sempre mais implacável,
Sempre mais devorador, sempre mais insensato!
Era como a sede, a sede inexorável
Que acendia outrora o filtro de Circe.
Reconhecia-te, voluptuoso suplício!
Quando o homem procura, ai! nos seus males esquecidos,
Do embrutecimento o monstruoso deleite…
E não é ? Circe! ? nunca bastante, ao seu capricho,
A Fera que lambe teus pés!
Pobre amor, ? o último, ? que os felizes do mundo,
No seu nojo altivo, se divertem a murchar,
Mas que deve desculpar toda alma um pouco profunda
E que um Deus de bondade não quererá punir!
Para bem apreciar sua doçura mentirosa,
Seria preciso, quando tudo brilha no teto do banquete,
Ter escondido os olhos na sombra do seu copo
E chorado nessa sombra, – e bebido a lágrima amarga
Que caía e que nele se fundia!
Uma noite bebia-a, essa lágrima, em silêncio…
E, mergulhando de novo meu lábio entre teus lábios de ouro,
Tinha acabado de retomar, ó minha sombria Demência!
A ironia, e a embriaguez, e ainda coragem!
O Espírito ? a Águia vingadora que paira sobre a vida ?
Voltava ao meu lábio, ao seu sanguinário poiso…
Ia recomeçar meus acessos de loucura
E rir de novo do riso que desafia…
Quando uma mulher, em espartilho negro,
Uma mulher… Julguei que era uma mulher,
Mas desde então… Ai! vi quanto me enganava,
E que era um Anjo, e que era uma alma,
De refrescamento, de luz e de paz!
No meio de nós todos, encantadora solitária,
Tinha os olhos cheios de todas as piedades.
Pegou nas suas luvas brancas e meteu-as no meu copo,
E disse-me rindo, com sua voz doce e clara:
«Não quero mais que bebas!»
E essa simples palavra decidiu da minha vida,
E foi o golpe de Deus que mudou meu destino.
E quando ela o disse, segura de ser obedecida,
Sua mão veio castamente apoiar-se sobre minha mão.
E, desde esse tempo, fui procurar a embriaguez
Noutro lugar… que na taça onde fervia teu veneno,
Feiticeira abandonada! ó minha Ruiva Amante!!!
Belo exemplo a mais de que Deus na sua sabedoria,
Pôs o anjo acima do demónio!
Em Paris, 11 de novembro de 1854.
Jules Barbey d’Aurevilly
Tradução gerada por Poésies 123 com o apoio do modelo de inteligência artificial deepseek-chat.
Texto publicado em Poésies 123: https://www.poesies123.com/pt/poema-a-amante-ruiva-jules-barbey-d-aurevilly/
