XL
Quando sonho na falésia,
Ou nos bosques, nas noites de verão,
Sabendo que a vida é má,
Contemplo a eternidade.
Através do meu destino misturado de sombras,
Vejo Deus distintamente,
Como através de ramos escuros
Se entrevé o firmamento!
O firmamento! onde os falsos sábios
Procuram como nós conselhos!
O firmamento cheio de nuvens,
O firmamento cheio de sóis!
Um sopro purifica a nossa lama.
O mundo é de Deus, sinto-o.
Toda flor é um louvor,
E todo perfume é um incenso.
À noite julga-se sentir Deus mesmo
Debruçado sobre o homem palpitante.
A terra reza e o céu ama.
Alguém fala e alguém ouve.
No entanto, sempre ao nosso êxtase,
Ó Senhor, tu te esquivaste;
Ai! colocas lá em cima o vaso,
E deixas o lábio em baixo!
Mas um dia a tua obra profunda,
Nós a saberemos, Deus temido!
Iremos ver de mundo em mundo
Desabrochar a tua unidade;
Procurando nesses céus que reges
A sombra daqueles que amamos,
Como um bando de grandes águias
Que voa através das montanhas!
Pois, quando a morte nos reclama,
O espírito dos sentidos quebra o selo.
Pois o túmulo é um ninho onde a alma
Toma asas como o pássaro!
Ó sonho! ó visão serena!
Saberemos o segredo de tudo,
E esse raio que sobre nós se arrasta,
Poderemos ver-lhe o outro extremo!
Ó Senhor! a humilde criatura
Poderá enfim por sua vez ver
O outro lado da natureza
Sobre o qual cai o vosso dia!
Poderemos comparar, poetas,
Pensadores crentes nas nossas razões,
A todos os mundos que fazeis
Todos os sonhos que fazemos!
Entretanto, sobre esta terra,
Erramos, rebanho desunido,
Trazendo em nós este grande mistério:
Olho limitado, olhar infinito.
O homem ao acaso escolhe o seu caminho;
E sempre, faça o que fizermos,
Como um bode sobre a erva que pasta,
Vive curvado sobre as suas paixões.
Erramos, e nas trevas,
Indo onde outros chegaram,
Ouvimos vozes fúnebres
Que dizem palavras desconhecidas.
Nessas sombras onde tudo se esquece,
Virtude, sabedoria, esperança, honra,
Um vai gritando: Elias! Elias!
Outro chamando: Senhor! Senhor!
Ai! todo pensador parece ávido
De apavorar o homem órfão;
O sábio diz: O céu está vazio!
O padre diz: O inferno está cheio!
Ó luto! médicos sem dictames,
Vãos profetas de olhos enganados,
Um dá Satanás às nossas almas,
Outro tira-lhes Jesus!
A humanidade, sem lei, sem arca,
Seguindo a sua senda seca,
É como um viajante que caminha
Depois que o dia se deitou.
Ele vai! a bruma está sobre a planície.
O vento torce a árvore convulsa.
As coisas que ele distingue a custo
Têm um ar sinistro e pensativo.
Assim, entre negros escombros,
Neste século o género humano
Passa e vê figuras sombrias
Que se debruçam sobre o seu caminho.
Nós, sonhadores, sob um teto que desmorona,
Fatigados, abrigamo-nos,
E olhamos essa multidão
Mergulhar na sombra às apalpadelas!
E procuramos, cuidado moroso!
Ai! adivinhar para todos
O problema que nos propõe
Toda essa sombra à nossa volta!
Enquanto, a cabeça inclinada,
Nos perdemos em tristes votos,
O sopro do destino
Estremece através dos nossos cabelos.
Ouvimos, raça escravizada,
Esse sopro passando na noite
Do livro obscuro da nossa vida
Voltar as páginas com ruído!
Que fazer? — A esse vento do túmulo,
Juntai as mãos, baixai os olhos,
E tentai que uma luz caia
Sobre o livro misterioso!
— De onde virá a luz, ó pai?
Deus diz: — De vós, em verdade.
Acendei, para que ele vos ilumine,
O vosso coração por algum lado!
Quando o coração arde, pode-se sem receio
Ler o que escreve o Senhor.
Virtude, sob essa claridade santa,
É a mesma palavra que Felicidade.
É preciso amar! a sombra em vão cobre
O olho do nosso espírito, seja qual for.
Crede, e a pálpebra abre-se!
Amai, e a pupila vê!
Do alto dos céus que a sua chama enche,
As demasiado longínquas verdades
Não podem ao livro da alma
Lançar senão vagas claridades.
À noite, nenhum olhar sabe ler
Aos únicos fogos dos astros vermelhos;
Mas o amor vem brilhar junto de nós,
Uma lâmpada ajuda os sóis.
Para que, na sombra onde Deus nos conduz,
Possamos ler a todos os momentos,
O amor junta a sua luz humana
Aos celestes raios!
Amai pois! porque tudo o proclama,
Porque só o espírito ilumina pouco,
E muitas vezes o coração de uma mulher
É a explicação de Deus!
Assim eu sonho, assim eu devaneio,
Enquanto aos olhos dos marinheiros
A noite sombria a cada instante mergulha
Grupos de astros nas ondas!
Eu, que Deus tem sob o seu império,
Admiro, humilde e religioso,
E por todos os poros aspiro
Este espetáculo prodigioso!
Entre a onda, embalada pelos ventos,
E o céu, abismo ofuscante,
Sempre, para o olho do pensamento,
Alguma coisa sobe ou desce.
Gota de água pura ou jato de chama,
Esse verbo íntimo e não escrito
Vem condensar-se na minha alma
Ou resplandecer no meu espírito;
E a ideia ao meu coração sem véu,
Através da vaga ou do éter,
Do fundo dos céus chega estrela,
Ou pérola do fundo do mar!
25 de março de 1839.
Victor Hugo
Tradução gerada por Poésies 123 com o apoio do modelo de inteligência artificial deepseek-chat.
Texto publicado em Poésies 123: https://www.poesies123.com/pt/poema-caeruleum-mare-victor-hugo-2/
