O Homem e a Cobra

Fábula de Jean De La Fontaine Coleção As FábulasTemas AnimaisÉpoca Século XVII

Um Homem viu uma Cobra.
Ah! malvada, disse ele, vou fazer uma obra
Agradável a todo o universo.
A estas palavras, o animal perverso
(É a serpente que quero dizer
E não o homem: poder-se-ia facilmente enganar-se),
A estas palavras, a serpente, deixando-se apanhar,
É presa, metida num saco; e, o que foi o pior,
Resolveu-se a sua morte, fosse ele culpado ou não.
A fim de o pagar, todavia, com razão,
O outro fez-lhe esta arenga:
Símbolo dos ingratos, ser bom aos maus,
É ser tolo, morre pois: a tua cólera e os teus dentes
Nunca me prejudicarão. A Serpente, na sua língua,
Retorquiu o melhor que pôde: Se fosse preciso condenar
Todos os ingratos que há no mundo,
A quem se poderia perdoar?
Tu mesmo fazes o teu próprio processo. Eu fundo-me
Nas tuas próprias lições; lança os olhos sobre ti.
Os meus dias estão nas tuas mãos, corta-os: a tua justiça,
É a tua utilidade, o teu prazer, o teu capricho;
Segundo essas leis, condena-me;
Mas tem por bem que com franqueza
Ao morrer ao menos te diga
Que o símbolo dos ingratos
Não é a serpente, é o homem. Estas palavras
Fizeram parar o outro; ele recuou um passo.
Enfim replicou: As tuas razões são frívolas:
Eu poderia decidir, pois esse direito me pertence;
Mas reportemo-nos. – Assim seja feito, disse o réptil.
Uma Vaca estava ali, chamam-na, ela vem;
O caso é proposto; era coisa fácil:
Era preciso para isso, disse ela, chamar-me?
A Cobra tem razão; por que dissimular?
Eu alimento aquele ali há longos anos;
Ele não passou nenhum dia sem os meus benefícios;
Tudo é só para ele; o meu leite e os meus filhos
Fazem-no voltar a casa com as mãos cheias;
Até restaurei a sua saúde, que os anos
Tinham alterado, e as minhas penas
Têm por fim o seu prazer assim como a sua necessidade.
Enfim eis-me velha; ele deixa-me num canto
Sem erva; se ele quisesse ainda deixar-me pastar!
Mas estou amarrada; e se eu tivesse tido por dono
Uma serpente, teria ela sabido jamais levar tão longe
O homem, todo espantado com tal sentença,
Disse à Serpente: É preciso crer no que ela diz?
É uma caduca; perdeu o juízo.
Creiamos no Boi. – Creiamos, disse o rastejante animal.
Assim dito, assim feito. O Boi vem a passos lentos.
Quando teve ruminado todo o caso na sua cabeça,
Disse que do labor dos anos
Só para nós ele suportava os cuidados mais pesados,
Percorrendo sem cessar esse longo círculo de penas
Que, voltando sobre si, trazia de volta às nossas planícies
O que Ceres nos dá, e vende aos animais;
Que essa série de trabalhos
Por recompensa tinha, de todos nós quantos somos,
Muitos golpes, pouca gratidão; depois, quando ele era velho,
Julgava-se honrá-lo cada vez que os homens
Compravam com o seu sangue a indulgência dos Deuses.
Assim falou o Boi. O Homem disse: Façamos calar
Esse enfadonho declamador;
Procura grandes palavras, e vem aqui fazer-se,
Em vez de árbitro, acusador.
Eu também o recuso. A árvore sendo tomada por juiz,
Foi ainda bem pior. Servia de refúgio
Contra o calor, a chuva, e a fúria dos ventos;
Só para nós ornava os jardins e os campos.
A sombra não era o único bem que sabia fazer;
Curvava-se sob os frutos; contudo como salário
Um rústico abatia-a, era essa a sua paga,
Embora durante todo o ano liberalmente nos dê
Ou flores na Primavera, ou fruto no Outono;
Sombra no Verão, no Inverno os prazeres do lar.
Por que não a podavam, sem pegar no machado?
Do seu temperamento ainda teria vivido.
O Homem achando mau que o tivessem convencido,
Quis a todo o custo ganhar a causa.
Sou bem bondoso, disse ele, de escutar essa gente.
Do saco e da serpente logo deu
Contra os muros, tanto que matou a besta.
Assim se usa entre os grandes.
A razão ofende-os; metem na cabeça
Que tudo nasceu para eles, quadrúpedes, e gente,
E serpentes.
Se alguém abre os dentes,
É um tolo. – Concordo. Mas que é preciso então fazer?
– Falar de longe, ou então calar-se.

Jean de La Fontaine

Tradução gerada por Poésies 123 com o apoio do modelo de inteligência artificial deepseek-chat.

Texto publicado em Poésies 123: https://www.poesies123.com/pt/fabula-o-homem-e-a-cobra-jean-de-la-fontaine/