AO ESTATUÁRIO DAVID
I
David! como um grande rei que reparte por príncipes
Os estados paternos província por província,
Deus dá a cada artista um império diverso;
Ao poeta o sopro espalhado no universo,
A vida e o pensamento e os trovões troantes,
E o esplêndido enxame das estrofes frementes
Voando do homem ao anjo e do monstro à flor;
A forma ao estatuário; ao pintor a cor;
Ao doce músico, sonhador límpido e sombrio,
O mundo obscuro dos sons que murmura no escuro.
A forma ao estatuário! — Sim, mas, bem o sabes,
A forma, ó grande escultor, é tudo e não é nada.
Nada é sem o espírito, tudo é com a ideia!
É preciso que, sob o céu, de sol inundada,
De pé sob os flambeaux de um grande templo dourado,
Ou só com a noite num antro sagrado,
No fundo dos bosques dormentes como no limiar de um teatro,
A figura de pedra, ou de cobre, ou de alabastro,
Traga divinamente na sua fronte calma e altiva
A beleza, esse raio, a glória, esse relâmpago!
É preciso que um sopro ardente lhe infle a narina,
Que a força poderosa lhe encha o peito,
Que a graça rindo lhe tenha arredondado os dedos,
Que a sua boca muda tenha contudo uma voz!
É preciso que ela seja grave e para as mãos gelada,
Mas para os olhos viva, e, diante do pensamento,
Diante do olhar puro da alma e do céu azul,
Nua com majestade como Adão diante de Deus!
É preciso que, Vénus casta, ela saia da onda,
Semeando ao longe a vida e o amor sobre o mundo,
E fazendo em torno de si, no seu soberbo voo,
Por todo o lado onde se espalha e cai em gotas de ouro,
A água dos seus longos cabelos, húmido e sagrado véu,
De toda a erva uma flor, de todo o olho uma estrela!
É preciso, se a arte cristã anima o escultor,
Que com o mesmo encanto ela tenha mais altura;
Que Alma alada, ela ria e de Satanás se ri;
Que, Mártir, ela cante ao lado da roda;
Ou que, Virgem divina, astro do abismo amargo,
O seu olhar seja tão doce que apazigue o mar!
II
Eis o que tu sabes, ó nobre estatuário!
Tu que na arte profunda, como num santuário,
Entraste bem jovem ainda para nunca mais sair!
Espírito, que, pondo-te sobre os mais puros cumes
Para criar a tua grande obra, onde estão tantas harmonias,
Perto da chama na fronte de todos os altivos génios!
Eis o que tu sabes, tu que sentes, tu que vês!
Mestre severo e doce que iluminam ao mesmo tempo,
Como um duplo raio que lança uma luz estranha,
O jovem Rafael e o velho Miguel Ângelo!
E tu sabes bem também que sopro inspirador
Por vezes, como um vento sombrio, arrebata o escultor,
Alma em Isaías e Fídias temperada,
Da ode estreita e alta à imensa epopeia!
III
Os grandes homens, heróis ou pensadores, — semideuses! —
Sucessivamente sobre o povo passaram radiantes,
Uns armados de um gládio e os outros de um livro,
Estes mostrando com o dedo a rota que é preciso seguir,
Aqueles forçando a causa a sair do efeito;
O artista tendo um sonho e o sábio um facto;
Um achou o íman, a prensa, a bússola,
O outro um mundo onde se vai, o outro um verso que consola;
Este rei, justo e profundo, para o ajudar no caminho,
Tomou a liberdade francamente pela mão;
Estes tribunos forjaram freios às repúblicas;
Este sacerdote, fundador de hospícios angélicos,
Sob o seu teto, que aquece um hálito de Deus,
Tomou a criança sem mãe e o velho sem lume,
Este mago, cujo espírito reflete as estrelas,
De Ísis um após outro levantou todos os véus;
Este juiz, abolindo o infame carro,
Rasurou o código no lugar do carrasco;
Semeando apesar dos clamores insensatos,
De escolas as aldeias e os corações de pensamentos,
Para nos tornar melhores este verdadeiro sábio veio;
Em graves instantes este outro conteve,
Sob as suas possantes mãos à multidão impostas,
O povo, grande fazedor de coroas quebradas;
Outros atravessaram sobre uma ponte vacilante,
Sobre a mina que um forte ocultava no seu flanco,
Sobre a brecha por onde desmorona uma muralha,
Um horrível furacão de chama e de metralha;
Num século de ódio, idade ímpia e zombeteira,
Aqueles, poetas santos, fizeram ouvir em coro,
Às sombrias nações que a discórdia impele,
Dos campos e das florestas a voz augusta e doce
Pois o hino universal extingue as paixões;
Pois é sobretudo nos dias das revoluções,
Morno e ardente deserto onde o homem se aventura,
Que a arte se dessedenta na tua fonte, ó natureza!
Todos esses homens, corações puros, espíritos de verdade,
Frontes onde se resumiu toda a humanidade,
Sonhadores ou radiantes, estão de pé na história,
E todos têm o seu martírio ao lado da sua vitória.
A virtude é um livro austero e triunfante
Onde todo o pai deve fazer soletrar o seu filho;
Cada homem ilustre, tendo alguma divina marca,
Desse grande alfabeto é uma letra santa.
Sob os seus pés estão agrupados os seus símbolos sagrados,
Astros, liras, compassos, leões desmedidos,
Águias de olho de chama, de vastas envergaduras.
— O escultor deslumbrado contempla estas figuras! —
Ele pensa na pátria, nos túmulos solenes,
Nas cidades a encher de exemplos eternos;
E eis que já, visão magnífica!
Suavemente iluminados de um reflexo pacífico,
Crescendo fora do solo de momento em momento,
De vagos baixos-relevos carregados confusamente,
No fundo do seu espírito, que o pensamento atravanca,
Os enormes frontões aparecem na sombra!
IV
Não é assim? é assim que no teu cérebro, sem ruído,
O edifício se esboça e a obra se constrói?
É isto o que se passa na tua grande alma comovida
Quando todo um panteão tenebroso nela se agita?
É assim, não é, ó mestre! que se une
O homem à arquitetura e a ideia ao granito?
Oh! que nesses instantes a tua função é alta!
No limiar do teu frontão recebes como um hóspede
Estes homens mais que humanos. Sobre um bloco de Paros
Tu te sentas face a face com todos esses heróis
E ali, diante dos teus olhos que jamais desfalecem,
Essas sombras, que serão bronze e mármore, estremecem.
O futuro é teu, esse alvo de todos os seus votos,
E tu podes dá-lo, ó mestre, a quem quiseres!
Tu, espalhando sobre todos a tua equidade completa,
Sacerdote tanto como escultor, juiz tanto como poeta,
Acolhendo este, rejeitando aquele,
Louvando Napoleão, repreendendo Átila,
Por vezes engrandecendo um pelo contacto do outro,
Deslocando o guerreiro para melhor colocar o apóstolo,
Tu fazes deuses! — tu dizes, baixando a tua altura,
Ao pobre velho soldado, ao humilde velho pastor:
— Entrai! eu conheço-vos. As vossas coroas estão prontas.
E dizes a reis: — Não sei quem sois.
V
Pois não basta ter sido reis,
Ter trazido o cetro, e o globo, e a cruz,
Para que o altivo poeta e o altaneiro estatuário
Estrelem na sua noite o vosso pano mortuário,
E dos altos panteões vos abram os caminhos!
Sois vós mesmos, ó reis, que com as vossas próprias mãos
Construís sobre os vossos nomes ou a glória ou a vergonha!
O que fizemos cedo ou tarde nos conta.
Pode-se vencer o mundo, ter um povo, agir
Sobre um século, curar a sua ferida ou alargá-la, —
Quando as vossas missões forem enfim cumpridas,
Das coisas que aqui em baixo tereis realizado
Uma voz sairá, voz de ódio ou de amor,
Sombria como o ruído do ferrolho na torre,
Ou doce como um canto no ninho das pombas,
Que fará mexer a pedra das vossas tumbas.
Essa voz, o futuro, grave e fatal testemunha,
Está de antemão debruçado quem a escuta de longe.
E ali, nem carícia nem lisonja,
Nem boca a mentir moldada e nutrida,
Nem hosana pago, nem eco complacente
Mudando a queixa amarga em grito reconhecido.
Não, os vícios hediondos, as traições, os crimes,
Como as dedicações e as virtudes sublimes,
Trazem um testemunho íntegro e soberano.
As ações que se fazem têm lábios de bronze.
VI
Que sobre o teu ateliê, mestre, um raio permaneça!
Ali, no silêncio, a arte, o estudo esquecendo a hora,
Na sombra os ensaios que repudiaste,
De um lado Jean Goujon, do outro Fídias,
Das pedras, de pensamento meio revestidas,
Um tumulto mudo de imóveis estátuas,
Os bustos meditando nos cantos escurecidos,
Não sei que paz que cai dos beirais,
Tudo é grande, tudo é belo, tudo encanta e tudo domina.
Tu que no interior a arte divina ilumina,
Tu vês passar, grave e sem dizer uma palavra,
Na tua alma tranquila onde o dia vem do alto,
Todos os nobres aspetos da figura humana.
Como numa igreja a passos lentos se passeia
Um grande povo pensativo a quem um deus sorri,
Esses fantasmas serenos caminham no teu espírito.
Eles erram através dos teus sonhos poéticos
Feitos de sombras e de luzes e de vagos pórticos,
Por vezes palácio vermelho, por vezes túmulo dormente,
Secreta arquitetura, imenso amontoado
Que, lançando rumores alegres e plangentes,
Do teu grande pensamento enche as perspetivas,
Pois a antiga Babel não morreu, e revive
Sob as frontes dos sonhadores. Na tua cabeça, ó David!
A espiral se torce, o pilar se projeta;
E na obscuridade do teu cérebro vegeta
A profunda floresta, que não se vê em nenhum outro lugar,
Dos capitéis frondosos cheios de pássaros e de flores!
VII
Agora, — tu que vais fora das rotas traçadas,
Ó amassador de bronze, ó moldador de pensamentos,
Considera quão pequenos são os homens,
E mantém-te soberbo acima dos partidos!
Guarda a dignidade do teu cinzel sublime.
Não deixes tocar o teu mármore pela lima
Das sombrias paixões que corroem tantos espíritos.
Miguel Ângelo tinha Roma e David tem Paris.
Dá pois à tua cidade, amigo, este grande exemplo
Que, se os mercadores vis não entram no templo,
Os furores dos tribunos e o seu sonho aborrecido
Não entram no coração do artista sagrado.
Recusa às cortes a tua arte, dá aos povos as tuas vigílias,
Está bem, ó meu escultor! mas para longe dos teus ouvidos
Expulsa aqueles que andam lisonjeando as encruzilhadas.
Tu, no teu ateliê, deves sonhar sempre,
E, de todo o vício humano esmagando a cobra,
Tu mesmo por graus te deslumbrar da tua obra!
O que esses homens fazem na sombra ou desfazem
Não vale o teu olhar erguido para o teto
Procurando a beleza pura e o grande e o justo.
A sua missão é baixa e a tua é augusta.
E quem pois ousaria misturar um só momento
Nas mesmas visões, na mesma cegueira,
Nos mesmos votos odientos, insensatos ou ferozes,
Eles, escravos dos anões, tu, pai dos colossos!
Abril de 1840.
Victor Hugo
Tradução gerada por Poésies 123 com o apoio do modelo de inteligência artificial deepseek-chat.
Texto publicado em Poésies 123: https://www.poesies123.com/pt/poema-ao-estatuario-david-victor-hugo/
