Idolatrias e Filosofias

Poema de Victor Hugo Época Século XIX

A filosofia ousa escalar o céu.
Triste, ela está ali. Quem te construiu, ó Babel?
Oh! Que amontoado de esforços sem rumo! Que espirais
De sonhos, de lições, de dogmas, de morais!
Colmeia que enche de ruído e de tumulto um amontoado
De magos, de doutores, de papas, de lamas!
casebre onde a hipótese se encosta às ficções,
Tendo por teto a noite e por cave a cova;
Pórticos azuis abertos sobre as imensidades,
Visitados por todos os turbilhões dos sonhos;
Vão frontão que o peso do infinito deprime,
Espécie de campanário sinistro do abismo
Onde zumbem o pavor, a revolta, e o enxame
De todos os erros tocando o seu negro rebate!
E, como, de luzes confusamente semeadas,
Pelas brechas de um teto se exalam fumaças,
As doutrinas, as leis e as religiões,
O que hoje se crê, o que ontem sonhávamos,
Tudo o que o homem inventou, altar, culto ou sistema,
Por todos os respiradouros do edifício lívido,
Através da negrura do céu morno e profundo,
Todas as visões do género humano vão-se,
Espalhadas, em farrapos, pelos ventos desatadas,
Numa dejeção lívida de nuvens.

Templo, oficina, túmulo, o edifício faz medo.
Quer-se pegar numa pedra, toca-se num vapor.
Ninguém o pôde acabar. Não há ciclo nem idade
Que não tenha posto a sua escada no sombrio andaime.
Quem habita então ali? Caiu, está de pé;
É da enormidade que treme e se dissolve;
Uma casa de noite que o vazio dilata.
Pirro derrama a água sobre as mãos de Pilatos;
A dúvida ronda e dá a volta ao casebre
Onde Descartes diz sim enquanto Hobbes diz não;
As gerações sob o abismo das portas
Rolam, como, no inverno, montes de folhas mortas;
As escadas, sem fim subidas e descidas,
Estão cheias de gritos, de chamados, de passos surdos e perdidos
E de um formigueiro de quimeras rastejantes;
Aves assustadoras voam nas carpintarias;
É Buda, Maomé, Lutero dizendo: ide!
Lucrécio, Espinosa, todas as negras esfinges aladas!

Todo o homem está esculpido ali. Sócrates, Pitágoras,
Malebranche, Tales, Platão de olhos de aurora,
Combinam o ideal enquanto Swift, Timon,
Esopo e Rabelais amassam o limo.
É dia? É noite? No horroroso crepúsculo
O retor gesticulante ri e gesticula;
Não se sabe que reflexo de um fúnebre oriente
Embranquece os torsos nus dos cínicos rindo,
E dos sábios, lançando sombras de sátiros;
O adivinho sonha e torce nas cordas das liras
O louro verde misturado de smilax eterno.
Cada pórtico entreaberto descobre um negro túnel
Cuja extremidade mostra uma estrela ideal;
Como se, — Tu sabes, Ísis de triplo véu, —
Estas antros de ciência e estes poços de razão,
Subterrâneos do espírito humano, sem horizonte,
Sem ar, sem chama, tendo a dúvida por pilastra,
Empregassem a noite a fazer eclodir um astro,
E a mentira impura, disforme, ilimitada,
Vasta, cega, a construir a branca verdade!
Por toda a parte ao verdadeiro o falso, hera hedionda, se enlaça;
Não há dogma que não tenha o seu ponto fraco, e não canse
Uma cariátide, um suporte, um esteio;
Tebas tem por apoio a Índia, e a Índia o Catai;
Mênfis pesa sobre Delfos, e Genebra sobre Roma;
E, vegetação do sombrio espírito do homem,
Vê-se, curvados por um sopro em certos momentos,
Crescer entre as ameias dos altos entablamentos
Árvores monstruosas e vagas cujos troncos
Estremecem no azul lúgubre das vertigens.
E dessas árvores negras por instantes cai um fruto
À multidão de mãos abertas na noite;
Que fruto? Pergunta ao vento que uiva e se desencadeia!
Que fruto? O fruto do erro. Que fruto? O fruto do ódio;
A maçã de Eva com a maçã de Vénus.

Ó torre! Construção de pedreiros desconhecidos!
Ela sobe, ela sobe, e sobe, e sobe ainda,
Ainda, e dir-se-ia que o céu a devora;
E enquanto todo sábio ou louco que passa põe
Uma pedra a mais no seu brumoso cimo,
Sem cessar pela base ela desmorona e se afunda
Na sombra onde Satanás vem com Deus confundir-se;
Abismo onde nada se ouve senão o vento que persegue
Essas duas larvas no fundo de um tremor de noite!

Victor Hugo

Tradução gerada por Poésies 123 com o apoio do modelo de inteligência artificial deepseek-chat.

Texto publicado em Poésies 123: https://www.poesies123.com/pt/poema-idolatrias-e-filosofias-victor-hugo/