Guitarra

Poema de Victor Hugo Coleção Os Raios e as SombrasÉpoca Século XIX

XXII

Gastibelza, o homem da carabina,
Cantava assim:
“Alguém conheceu dona Sabina?
Alguém daqui?
Dançai, cantai, aldeões! a noite cai
Sobre o monte Falù.
— O vento que vem através da montanha
Há de me enlouquecer!

“Alguém de vós conheceu Sabina,
Minha senhora?
Sua mãe era a velha moura
De Antequera,
Que cada noite gritava na Torre Magna
Como um mocho… —
O vento que vem através da montanha
Há de me enlouquecer!

“Dançai, cantai! Dos bens que a hora envia
É preciso usufruir.
Ela era jovem e seu olho cheio de alegria
Fazia pensar. —
A esse velho que uma criança acompanha
Lançai um vintém!… —
O vento que vem através da montanha
Há de me enlouquecer.

“Na verdade, a rainha ao seu lado seria feia
Quando, ao cair da tarde,

Ela passava sobre a ponte de Toledo
Com espartilho negro.
Um rosário do tempo de Carlos Magno
Ornava seu pescoço… —
O vento que vem através da montanha
Há de me enlouquecer.

“O rei dizia ao vê-la tão bela
A seu sobrinho: — Por um beijo, por um sorriso dela,
Por um cabelo,
Infante dom Rui, eu daria a Espanha
E o Peru! —
O vento que vem através da montanha
Há de me enlouquecer.

“Não sei se amava essa dama,
Mas sei bem
Que por ter um olhar de sua alma,
Eu, pobre cão,
Teria alegremente passado dez anos no degredo
Sob o ferrolho… —
O vento que vem através da montanha
Há de me enlouquecer.

“Um dia de verão em que tudo era luz,
Vida e doçura,
Ela veio brincar no rio
Com sua irmã,
Vi o pé de sua jovem companheira
E seu joelho… —
O vento que vem através da montanha
Há de me enlouquecer.

“Quando eu via essa criança, eu o pastor
Deste cantão,
Julgava ver a bela Cleópatra,

Que, dizem-nos,
Levava César, imperador da Alemanha,
Pelo cabresto… —
O vento que vem através da montanha
Há de me enlouquecer.

“Dançai, cantai, aldeões, a noite cai!
Sabina, um dia,
Tudo vendeu, sua beleza de pomba,
E seu amor,
Pelo anel de ouro do conde de Saldagne,
Por uma joia… —
O vento que vem através da montanha
Há de me enlouquecer.

“Neste velho banco permiti que eu me apoie,
Pois estou cansado.
Com esse conde ela fugiu, portanto!
Fugiu, ai de mim!
Pelo caminho que vai para a Cerdanha,
Não sei para onde… —
O vento que vem através da montanha
Há de me enlouquecer.

“Eu a via passar da minha morada,
E isso era tudo.
Mas agora entedio-me a toda hora,
Cheio de desgosto,
Sonhador ocioso, a alma na campanha,
A adaga no prego… —
O vento que vem através da montanha
Enlouqueceu-me!”

Victor Hugo

Tradução gerada por Poésies 123 com o apoio do modelo de inteligência artificial deepseek-chat.

Texto publicado em Poésies 123: https://www.poesies123.com/pt/poema-guitarra-victor-hugo-2/