À que está velada

Poema de Victor Hugo Coleção As ContemplaçõesTemas AmorÉpoca Século XIX

Tu me falas do fundo de um sonho
Como uma alma fala aos vivos.
Como a espuma da praia,
Teu vestido flutua nos ventos.

Eu sou a alga das ondas sem número,
O cativo do destino vencedor;
Eu sou aquele que toda a sombra
Cobre sem apagar seu coração.

Meu espírito parece-se com esta ilha,
E meu destino com este oceano;
E eu sou o habitante tranquilo
Do relâmpago e do furacão.

Eu sou o proscrito que se vela,
Que sonha, e canta, longe do ruído,
Com a coruja e a estrela,
A sombria canção da noite.

Tu, não és, como eu mesmo,
Tocha neste mundo áspero e vil,
Alma, isto é, problema,
E mulher, isto é, exílio?

Sai da nuvem, sombra encantadora.
Ó fantasma, deixa-te ver!
Sê um farol na minha tormenta,
Sê um olhar no meu céu negro!

Procura-me entre as gaivotas!
Ergue um raio sobre meu recife,
E, nas minhas profundezas mudas,
A brancura do anjo pensativo!
Sê a asa que passa e se mistura
Às grandes vagas em fúria.
Oh, vem! deves ser bem bela,
Pois teu canto distante é bem doce;

Pois a noite gera a aurora;
É talvez uma lei dos céus
Que meu negro destino faça nascer
Teu sorriso misterioso!

Neste tenebroso mundo onde erro,
Devemos nós entrever,
Tu, toda feita de luz,
Eu, todo composto de dever!

Tu me dizes de longe que me amas,
E que, à noite, no horizonte,
Vens ver sobre as praias lívidas
O espectro branco da minha casa.

Lá, meditando sob o grande domo,
Perto do fluxo sem trégua agitado,
Surpresa de encontrar o átomo
Semelhante à imensidão,

Tu comparas, sem me conhecer,
A onda ao homem, a sombra ao banido,
Minha lâmpada estrelada na minha janela
Ao astro estrelado no infinito!

Às vezes, como no fundo de uma tumba,
Sinto-te sobre minha fronte fatal,
Boca do Desconhecido de onde cai
O puro beijo do Ideal.

Ao teu sopro, para Deus impelidas,
Sinto em mim, doce pavor,
Tremer todos os meus pensamentos,
Folhas da árvore interior.
Mas tu não queres que te vejam;
Vens e foges alternadamente;
Não queres chamar-te alegria,
Tendo dito: Eu chamo-me amor.

Oh! dá mais um passo! Vem, entra,
Se nenhum dever o impede;
Vem ver minha alma na sua caverna,
O espírito leão, o coração criança;

Vem ver o deserto onde habito
Sozinho sob meu teto assustador;
Sê o anjo no cenobita,
Sê a claridade no vidente.

Transforma em pérolas nas minhas ruínas
Todas as minhas gotas de suor!
Vem pousar sobre minhas obras sombrias
Teu dedo de onde sai um brilho!

Da borda das sinistras ravinas
Do sonho e da visão,
Entrevejo as coisas divinas… –
Completa a aparição!

Vem ver o sonhador que se inflama
À medida que se destrói,
E, de dia para dia, na sua alma
Tem mais morte e menos noite!

Vem! vem na minha bruma agreste,
Onde nasce a fé, de onde o espírito sai,
Onde confusamente olho
As formas obscuras do destino.

Tudo se ilumina às luzes fúnebres;
Deus, para o pensador triste,
Abre sempre nas trevas
Bruscos abismos de claridade.

Antes de estar nesta terra,
Sinto que outrora planeei;
Eu era o arcanjo solitário,
E minha desgraça é ter nascido.

Sobre minha alma, que foi pomba,
Vem, tu que dos céus tens o selo.
Às vezes uma pena cai
Sobre o cadáver de um pássaro.

Sim, minha desgraça irreparável,
É pender aos dois elementos,
É ter em mim, miserável,
Do lodo e dos firmamentos!

Ai! ai! é ser um homem;
É sonhar que eu era belo,
Ignorar como me chamo,
Ser um céu e ser um túmulo!

É ser um forçado que passeia
Seu vil labor sob o céu azul;
É carregar o cesto humano
Onde eu tinha vossas asas, meu Deus!

É arrastar matéria;
É estar cheio, eu, filho do dia,
Da terra do cemitério,
Mesmo quando exclamo: Amor!

Victor Hugo

Tradução gerada por Poésies 123 com o apoio do modelo de inteligência artificial deepseek-chat.

Texto publicado em Poésies 123: https://www.poesies123.com/pt/poema-a-que-esta-velada-victor-hugo/