Era um doce país iluminado de planícies
Onde circulavam longos rebanhos
Cujas lãs se viam
Branquear os prados e mirar-se na água;
Eram campos de flores ao infinito:
Um rio serpenteava de choupanas em choupanas;
Seu curso fazia, ao longe, um gesto de luz;
Eram lagos, cercados de juncos; como grandes ninhos,
Onde as aves adormeciam em silêncio,
Onde só um vento muito lento de paz e de clemência
Movia o ar tranquilo em torno de um ilhéu de ouro.
Era a hora da tarde e das vagas imóveis
Quando o eco liso e puro duplica, de margem a margem,
A voz dos barqueiros nas ribeiras natais.
As aldeias pensavam no fundo das alamedas.
Persuasivas e benvindas
As boas vontades de amar e de bem viver
Dilatavam o ser — e o espírito parecia ébrio
Ou de alegria enternecida ou de feroz dor.
Um pouco do ouro das tardes penetrava nas flores
Que se fechavam para adormecer;
Olhava-se, ao longo dos grandes caminhos, fremir
De alto a baixo, os choupos noturnos;
O voo dos angelus, sobre as coisas, planava;
Um sentido novo do mundo, com doçura, caía
Das urnas
Que o infinito e o mistério
Inclinam, desde milhares de anos,
Para os desejos tensos e ofegantes
E os êxtases da terra.
Puras, no cristal talhadas,
As primeiras estrelas despertas
Apareciam, uma a uma, no horizonte.
O tranquilo orvalho prateava a relva;
Uma bondade melancólica e fresca
Vinha das coisas para o coração;
Toda claridade, como flechas,
Apontava sua força em profundidade;
Nos azuis distantes de calma e de prece,
A sombra inclinada desposava a luz;
Mãos juntas pareciam da terra subir
E elevar-se sempre e exaltar-se,
E tal era o ardor de benevolência
Que vos apertava, que ela explodia em violência
E ia, mais alto que o próprio perdão,
Lançar, para esse desejo extremo
De ser subitamente o ludibriado ou a presa
De uma injustiça — e de chorar de alegria.
Desejava-se
Despojar-se de todo orgulho;
Desejava-se
Ser aquele que acolhe
O sacrifício — e que se cala;
Desejava-se,
Unir-se confusamente a tudo o que tremia,
Nessa tarde pura e translúcida
Como luzes de ouro num vitral de abside.
Desejava-se enfim
Fundir-se e abismar-se nessas provas claras,
Felicidade que se deixa, ânsias que se querem, dor que se vence,
E viver, no seu tumulto íntimo e voluntário,
Como um mártir ou como um santo.
As choupanas, lá longe, dormiam ao longo das estradas;
As flores e as cores apagavam-se todas;
Mas o eco liso e puro duplicava sempre, duplicava ainda,
De margem a margem,
Nessa hora de calma e de vagas imóveis
A voz dos barqueiros dos rios natais.
Emile Verhaeren
Tradução gerada por Poésies 123 com o apoio do modelo de inteligência artificial deepseek-chat.
Texto publicado em Poésies 123: https://www.poesies123.com/pt/poema-a-clemencia-emile-verhaeren/
